quarta-feira, 23 de junho de 2010

Lágrimas

O menino abriu a porta com os olhos arregalados para o mundo, viu tudo que estava ao seu redor, contemplou o ambiente e depois observou tudo aos mínimos detalhes. Ele estava surpreendido com tanta beleza ao seu redor, nunca havia visto tanta beleza. Seus olhos se encheram de lágrimas, ele estava tocado, toda beleza havia tocado bem fundo dentro dele no seu íntimo. Ele pensou que não suportaria tanta beleza, tanto contentamento. Deu graças a Deus pela luz não chegar tão perto se não correria o risco de cegá-lo completamente, ainda que sentisse completamente perdido, completamente perdido dentro de um mundo tão desconhecido.
Assim como não se pode olhar o sol em seu brilho intenso, ele sentiu, o que olhava, aquela beleza poderia cegá-lo, então desviou os olhos. Mas por um momento ele pôde contemplar este estado de pureza, pôde sentir em sua pele a beleza do mundo todo, mas sabia que era apenas um pedaço ínfimo da beleza de todo mundo, beleza que brilha e resplandece dentro dele. Sentiu em contato com o seu mais íntimo eu, ele fazia parte do todo, todo o mundo estava dentro dele. Pode sentir o eu que é divino, o eu que brilha reluzente os olhos de quem vê, de quem tem coragem de se ver.
Ele se aproximou do espelho e viu seu corpo refletido, seus olhos vivos lhe diziam aproveite a cada instante, usufrua do eterno presente que está a todo instante ao seu redor.Desviou os olhos e pensou que vivia na loucura, se seguisse adiante poderiam chamá-lo de louco, e ele próprio se sentiria deslocado, ele próprio não suportaria tanta verdade dentro da loucura, a sua própria loucura. Loucura que ele não estava acostumado, loucura de ver em sentidos, em tudo observar o aprendizado, em tudo ser plenamente, tudo observar. Ele não estava acostumado, por isso a luz poderia lhe cegar, poderia deixá-lo completamente perdido, completamente diferente do que sempre foi. E isso era um perigo, não poderia arriscar-se tanto ao ponto de perder-se, mas o que ele não sabia é que já estava perdido.
Procurava uma forma, uma forma antiga de viver para sentir que não estava perdido, queria ver seu outro eu, o eu que já morreu naquele instante que viu toda a beleza, tinha medo, muito medo. Medo da renovação, medo de perder suas referências, medo de ser deletado. Não queria ser uma pessoa que não sabia quem era, não sabia quem era. Era apenas uma parte ínfima do universo, isso ele não queria saber. Queria acreditar que era grande, bom, o melhor de todos, o mais importante. Mas o universo revelou-se todo e ele sabia, sabia que nunca mais acreditaria que ele era o melhor. E pior, sabia que não poderia fugir mais de si mesmo, teria que entrar em contato. Mas não agora, agora ele queria ser livre para escolher não olhar, não queria ver o que existia por debaixo de sua máscara, não queria enxergar que vestia uma máscara até para si mesmo, não queria. Era demais para ele, era muito, ele não queria, não queria, queria ser o que era, queria voltar no tempo e resgatar o antigo eu, aquele que não chorava diante de tanta beleza e não se surpreendia com tudo que via. Aquele que não sentia...queria ser o de antes, o que não sabia da tal da máscara. Mas agora era tarde demais, tarde demais para se ignorar, tarde demais para ignorar a vida, tarde demais para ignorar o mundo, tarde demais para ignorar alguns aspectos que saberia que era importante. Mas agora ele não apenas sabia, ele sentia...Sentia tudo o que deveria fazer, tudo o que tinha que realizar. E tinha cada vez mais medo de olhar, olhar para dentro era muito intenso, muito profundo, perdia suas referências, perdia tudo o que tinha aprendido, nada lhe era mais tão importante para ser guardado, nada era tão importante para ser agarrado e engulido, tudo se tornara importante, nada tinha exclusividade. As pessoas o olhavam com certa desconfiança, e ele via tudo, infelizmente ele via tudo. Toda beleza e toda insatisfação humana, ele via tudo. Mas o tudo não era nada do que ele ainda iria descobrir.




escrito em 29 de Junho, 2006

2 comentários:

Assis Freitas disse...

alumbramento, sim, alumbramento


beijo

Luiza Maciel Nogueira disse...

:)

bj.