quarta-feira, 23 de junho de 2010

A primeira professora de piano

Na época tinha sete ou oito anos, lembro que escolhi o piano como instrumento musical. Meu avô tinha um e eu gostava de tocá-lo ao meu modo, mas quem ouvia queria que eu parasse imediatamente. Divertia-me em notas e fazia barulhos irritantes aos ouvidos vizinhos. Nessa altura todos concordavam que eu deveria ter aulas de piano o mais rápido possível. Foi nesse tempo que conheci minha primeira professora de piano. Era uma amiga da amiga do amigo do vizinho. Diziam que ela era uma figura muito polêmica na cidade, mas nunca soube por que todos falavam isso dela. Ela era muito jovem para ser professora e as lições que me ensinou ao piano me ajudaram em tantas coisas na vida. Até hoje recordo do que me disse. E a cada dia que passa compreendo cada vez um pouquinho mais do que me passou. O aprendizado vai se completando com o tempo.
A profundidade dessa mulher era incrível, falava com uma voz de criança e tinha olhos muito vivos, típico das pessoas lúcidas e quase puras que quase ninguém compreende. Talvez seja por isso que foi tão polêmica na época, ninguém entendia sua alegria. Lembro também de estudar cada nota musical e ela me exigia todo dia a sentir cada nota em toda extensão possível para os sentidos. Cada dia inventava uma forma diferente de me dizer a respeito de cada nota e foi assim que ficava cada vez mais íntima do piano, da música, da vida que existia em cada nota que meus dedos faziam surgir, dar vida ao som. Ensinava-me inclusive o som do silêncio, o som de todos os objetos, instrumentos, vozes, movimentos.
Era de uma delicadeza suas mãos, seus braços, como uma verdadeira pianista que passeia pelo instrumento com a alma toda e nem um centímetro fora. Ensinou-me a cor que as mãos que cada pessoa de cor diferente tem, ensinou-me a minha cor peculiar, o movimento que cada pessoa adquire na vida com o instrumento, movimento peculiar, o preciso momento do toque, da intimidade, da aproximação com o piano. O preciso momento do toque é o mais precioso e para ele ser o que é, deve ser valorizado exatamente do jeito que é. Para ser reconhecido como é, não basta tocar e fazer um som qualquer, é preciso muito mais do que isso. É preciso deixar o som ser, é preciso ser a nota, o instrumento, a música e se entregar realmente no preciso momento do toque, da intimidade, da vida.
Nesses dias ouvia ela com muita atenção, mas muitas coisas me passavam despercebidas e só hoje vejo a importância dessa pessoa na minha vida. Ela é uma verdadeira professora de piano, a que desejo para todas as crianças que quiserem se aproximar um pouco mais da música, da vida, da paixão em criar e até mesmo do amor.



escrito em 18 de Janeiro, 2007

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