sexta-feira, 29 de julho de 2011

É pedra


era pétala de esperança
ou flor de desejo
não sei, hoje já não é tanto mais
que pedra no caminho...
por vezes tropeço no fardo
por outras é pérola rara
e só agora vi amor
é preciso trocar de lente,
de pele, de rosto, de olho,
de osso, de alma, de sonho
e até de ti
para nascer



*para Carlos Drummond de Andrade 
e sua "pedra no caminho..."



Lá no SemprePoesia

Estou junto à poesia de Úrsula Avner!

http://ursulaavner.blogspot.com/2011/07/deslumbre.html


quinta-feira, 28 de julho de 2011

Para meu amor*



Te ver mexer os lábios
e recitar poemas.
O brilho dos teus olhos
no adágio da noite.
As estrelas moram
na tua língua
e eu sou aquela ave
(muda) e incandescente
no céu da tua boca...





















(Pequena III - Luiza Maciel Nogueira)

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Da escrita


(árvore em brio - Luiza Maciel Nogueira)



O canto da palavra no vazio,
enche de pauta o céu,
prece de anseio, lar azul
planta sementes nos olhos.
e se houver amor
o canto cresce feito flor
depois (e)terno será
em oração...

(se Deus quiser)



*reflexão sobre o escrever publicado no grupo Diálogos Poéticos


terça-feira, 26 de julho de 2011



folha de céu azul
dança pelo ar 
encontra seu lar
















(por Luiza Maciel Nogueira)




...a flor da saudade


Quase consigo conduzir
cada coisa que brota
em mim.
Mas há um comando
que foge do meu controle
e inconsciente me invade:
A flor da SAUDADE”


por Mirze Souza

em: http://wwwmeulampejo.blogspot.com/

(roubado do blog da poeta Mirze)









"a mulher é azul
os pássaros são azuis
contra o céu azul."
José Carlos Brandão
.

Haicais míopes


(Poesia XIV - Luiza Maciel Nogueira)



(iluminação)
o reflexo do mundo
no brio do teu óculos
a janela, a porta, o mar


(quase azul)
pássaros planam
distantes nas lentes
o céu é turvo


(em lume)
no chuveiro
aglomerados de gotas
embaçadas no vidro


(foco)
de perto tudo vejo
distante quase nada
oito graus de saudade




"diz focado
alto grau 
alta vista" 

Assis Freitas


segunda-feira, 25 de julho de 2011

De dentro do riso



Ode aos pássaros azuis
heróicos vilões
na sede na boca
em desejo de céu caótico,
como riso que se abre
em lábios nús.


Nos olhos: o baile das nuvens
caminham banhadas no lume,
na lucidez do minueto
em pingos de chuva,
nos cantos sussurra
entre o osso e a paisagem.
Raios solares despertam
a saliva: nascente da língua
lambe os beiços,


(e é só miragem).


domingo, 24 de julho de 2011

Lá no SemprePoesia

Hoje estou também nesse espaço maravilhoso que é a poesia de Úrsula Avner!

http://ursulaavner.blogspot.com/2011/07/lilas.html


‎(Cacos)

A vida não passou para mim
ainda hoje me sinto criança,
como se os anos só tivessem voado.
E passado assim sem me rasgar a pele...
o que fere não são os anos, nem o tempo
a dor também não fere tanto
como o silêncio quando rasga
a garganta, quando só e imortal
berra mas não sai
nada...



sábado, 23 de julho de 2011

Haicais silentes

a multidão dos pássaros
cantam enquanto o sol se põe
em brio nas cerejeiras em flor


e depois a garoa inunda
os ramos de lágrimas
em pétalas cheias de água


o contratempo da beleza
enquanto aquela nota chove
sem o teu amor








"sem o teu amor
a flor murchou
em meus lábios"



Cris de Souza






Pássaros azuis
singela beleza
sutil comunhão

 Ianê Mello





sexta-feira, 22 de julho de 2011

(Cratera)



Amanheci buraco de pedra rasa
sem um pingo de doçura
lacrimejei o luto da minha ternura
Era um tempo sem tempo, um tempo nublado.
quase um qualquer dia.
Sem tanta lembrança, sem tanta alegria,
sem tanto mistério. Era só mais um dia...
os segundos deixam de existir com o esplendor da espera
os lábios já não resistem ao beijo nos olhos nús
não pretendo fingir. Parei, basta o sufoco,

(quero só paisagem).





quinta-feira, 21 de julho de 2011

Alberto Caeiro




"Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é."


Alberto Caeiro
1889-1915






quarta-feira, 20 de julho de 2011

Lá no Vidráguas

hoje estou junto ao Projeto PontuAção!

http://vidraguas.com.br/wordpress/2011/07/20/traduzir-se-em-quadrinhos-projeto-pontuacao/


Sophia de Mello Breyner Andresen




"A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima de uma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeo de Souza-Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.


Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do amor e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor. 


E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras. Diz o coro de Esquilo: "Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça.”. Pois a justiça se confunde com o equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o Sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo. Se em frente do esplendor do mundo nos alegrarmos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência”.


In Obra poética, volume I, Caminho


Sophia de Mello Breyner Andresen







segunda-feira, 18 de julho de 2011

Haicais do anoitecer

(Pequena II - por Luiza Maciel Nogueira)


quando anoitece
a poesia ronca
estrelas


pestanejam estrelas
na sonata dos sapos
brota a flor da noite


lua de orvalho
na pauta do pássaro
brotos de água


giram sóis
órbitas estelares
Adagio de luares








o pó do silêncio
tremeluzem notas de orvalho
no espectro da noite

(para Jorge Pimenta)







sábado, 16 de julho de 2011

Cresça


(Maça - por Luiza Maciel)



já me acostumei com
o silêncio
e quer saber?
tanto faz...
um dia tudo
fere, morde
depois
não importa
sempre passa...

o céu continua
azul e os pássaros
ainda cantam
o que importa de verdade?
é só uma coisa*
(imensa)



sexta-feira, 15 de julho de 2011

Rascunhos doridos de um outro dia



(Pequena - por Luiza Maciel Nogueira)






Debaixo da porta

tremem diante do nada
mal dizem os lábios
antes do dia nascer

ferem cometas
atiram na lua
(querem mais)
presos na noite
não trespassam
pontes
fincam os pés
como veneno
da terra

também já fui
raiz
sei ser mar
colho pedras
bebo veneno
para renascer
dissolvo pó

fora nada mais
despenca
minha fé no
(cheio-vazio)
mundo

(mudo)




Susto 


rubra 
feito contramão 
avenida coberta 
de sangue 
bala perdida 
no osso


‎()


ai vazio!
que não se preenche
nos entretantos
nem cicatriza
sua ferida
de tanto tanto
tempo
atrás...










(Fuga - por Luiza Maciel)



(sóis na língua
sopa de estrelas
peixes no céu)






quarta-feira, 13 de julho de 2011

terça-feira, 12 de julho de 2011

Tankas (ou quase)





I
ressoa o silêncio
no vôo das andorinhas
em círculos vão
atravessam nuvens cinzas
e pousam em qualquer ramo




II
ser feito magma
ainda no caminho
do broto da pedra
fragmento de ternura
não ultrapassa solidão




III
despir o nada
em oração minúscula
ver-te de novo
no sem tempo dos olhos
não perder-te nos traços
(das coisas)




IV
ser como rio
na fluidez das lágrimas
enquanto na sede
o sol deita seu corpo
na transparência da água




















segunda-feira, 11 de julho de 2011

Haicais de um leve esboço do tempo




o sussurro das folhas

ainda en(canta)
após a chuva




giram sóis
órbitas estrelares
jardim de olhares




florir-se em orvalho
é lento o caminhar
das pétalas em pranto




luz de pétala
garoa de poente no mar
uma onda bate no cais



(Lar II - Luiza Maciel)

sábado, 9 de julho de 2011

Haicais de inverno



a palidez do tempo
envolve folhas rubras
de saudade


os olhos nublados
pelo frio da pele
carecem de sol


garoa de inverno
ave de folha
lágrima ao vento



(há paz
em dizer absolutamente
nada...)


sexta-feira, 8 de julho de 2011

Sem direção

I.Pimenta

ciclos regem a boca
carnuda
de passos largos
feito mistério
de pele em sopro
(sensação)
arde até o dente



II. Borboleta

céu
entre frestas de sol
asas e asas
sem chão
só água


III. Pingo

parte um pedaço
da minha inocência
sem lembranças : rubra
a palidez me encherga
branca
prefiro o silêncio
a qualquer
- desamor





quinta-feira, 7 de julho de 2011

Lá no Meu Lampejo

Hoje estou aqui juntamente com a grande Mirze e também com um pouco da Cris de Souza! É tão bom essa troca de inspirações, agradeço às duas grandes poetas.

http://wwwmeulampejo.blogspot.com/2011/07/coisas-da-emocao.html

sexta-feira, 1 de julho de 2011

(...)



(Experiência com carvão natural e aquarela 
por Luiza Maciel Nogueira)




palavra nenhuma
interpreta esse
(silêncio)