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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Sophia de Mello Breyner Andresen




"A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima de uma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeo de Souza-Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.


Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do amor e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor. 


E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras. Diz o coro de Esquilo: "Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça.”. Pois a justiça se confunde com o equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o Sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo. Se em frente do esplendor do mundo nos alegrarmos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência”.


In Obra poética, volume I, Caminho


Sophia de Mello Breyner Andresen







4 comentários:

Assis Freitas disse...

tem tanta coisa tão bonita que às vezes dói,



beijo

Jorge Pimenta disse...

luíza,
neste meu regresso ao blogue [nem de regresso posso ainda verdadeiramente falar, mas, para já, apenas de aceno] conjugas dois dos maiores que as letras portuguesas alguma vez viram: sophia e eugénio. tive o privilégio de os ouvir e conhecer, em dois eventos que me marcaram para sempre.
um beijinho com saudades!

Luiza Maciel Nogueira disse...

Assis: As coisas bonitas tem essa capacidade de nos fazer chover :) um beijo

Jorge: que maravilha Jorge conhecer dois grandes desses! Qualqer dia vou querer saber tudo desse encontro - sugestão - faça uma crônica a respeito desses encontros!

beijo

Hosamis disse...

Luiza, que belas palavras encontro aqui. Não conhecia Sophia, e desejo agora ler livro que você cita. O sentimento de Sophia é o que sinto em minha essência: essa vontade tão grande de levar poesia às crianças, essa vontade que traduzo também por necessidade de meu ser de fazer justiça, de preencher a lacuna deixada pelo descaso à poesia levando-a às crianças nas escolas...é algo tão forte em meu ser que não conseguiria explicar, por isso desejo apenas agir. Bjs e obrigada por me apresentar Sophia.