Música!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Da tristeza quando transborda


Lembro de ficar demasiado triste diante da certeza do abandono. A tristeza quando transborda se transforma numa imensa orquestra a cada vez que o trem (das lembranças) passa na estação com inúmeros instrumentos a tocar nosso fim de mundo, é apenas o início de tudo que ainda está por vir. A impaciência pulsa nos olhos do outro enquanto quero sempre eternizar aquilo tudo que sei ser o último dia da minha vida. Do infinito pulsar da vida sem volta que consiga atingir a saudade do início, quando não existia mapa que traçasse nossas vidas.


"Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."

Antoine de Saint-Exupéry


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Quem

Quem será que me germina?
Arada a terra e me compõe.
Quem dentre tantos edifica o pranto
que me cai nos olhos sem tanto
sufoco tato disparato.
Quem que desses faz um jato
sob a pele que tanto fere
prende cala digere
a mágoa que no tiro profere.
Quem dentre aqueles 
com fato tato adere 
tal qual raíz que a flor confere.

Quem dentre aqueles digere
que o absurdo nos fere?


Luiza Maciel Nogueira


* Inspirado em um desafio proposto por Tania Contreiras Arteterapeuta sobre um poema de Renan Sanves intitulado "O hóspede despercebido". 

Arte de Rene Magritte 
 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Lá Si Vai

Lá Si vai 
adormecer

Lá Si vai
o Sol se finda 

Lá Si vai
a dor nascer 

Lá Si vai
o amor morrer

Lá Si vai
a arte desaparecer

Lá Si vai
o corte da asa do pássaro

Lá Si Vai
o pássaro cai 

*
 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Por um abraço musical

 


Um dia qualquer, um delírio desses que chegam de repente poderiam cair em um abraço musical. Das notinhas a rodopiarem com pássaros por todo corpo embebidos da música de uma qualquer maravilha na pele a beijar os ouvidos a alegria do som ser morada em nós. Morada de interrogações exclamações, de dois pontos até os três pontinhos para que seja um abraço de infinita duração mas sem a prisão dos abraços mesquinhos e egoístas que querem só prender por paixão ou ilusão, mas um abraço completo pleno de imensidão a dar espaço para a música ser e fluir, a abrir portas e janelas para belezas sonoras. Da ternura que o tempo nos ofereceu nesse espaço louco de ânsia e saudade a pulsar nossas miragens, delírios jogados para a colheita na eternidade. E a música não pára de brotar em um contínuo, o tempo que nos escorrega anuncia o chorinho dos pássaros, a sonata dos bem te vis, o solo do tucano, o coro das maritacas e o silenciar das corujas a relembrar que nosso abraço haverá de repercutir em todos os abraços que ainda serão, também naqueles que se foram, naqueles que são e que nada será, é e foi em vão.

*

Dei de ombros ao que não vinga

 

dei de ombros ao que não vinga
a sorte de ser um pedaço mínimo 
na beira do abismo 
faz de mim um ser quase invisível 
o egoísmo que tenho
o abraço passageiro
a raiva da impossibilidade
a ternura na fragilidade
a lembrança recortada como se não
fizesse mais parte não

a escolha será para a infinitude nos levar
aquilo que nos fará ser
tão natural, artificial 
para quem quiser ver 
através do espelho
reflete a imagem daquele 
que testemunha a vida
e não sabe que aqui estou
através

não me olhe assim
deixa eu ser qualquer coisa
que não seja tão irreal
deixa eu ser natural
ainda que tão artificial
deixa eu ser quem sou
deixo desvanecer
eu não sou teu espelho
eu não sou tão assim
eu só sou um escaravelho
vou envelhecer, vou prometer
vou mentir, vou decepcionar
vou amar, vou odiar
vou complicar, vou ignorar
vou acalentar, vou brigar
vou cantar até silenciar 
até silenciar
até silenciar
até silenciar

*

Cisco?

é um castigo na beira do abismo
procurar por um cisco
onde não existe nada

*

é tão difícil se encontrar
seria o cisco perdido de mim?
ou seria o fim?
penso que encontrei quando já perdi
o encontro será um espaço de perder-se?
ou as palavras todas seriam sinônimas
com o mesmo desejo de encontrar sentido
no mistério profundo de nós?

*


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Corre um fio de nuvem


Corre um fio de nuvem na saudade que finda.
Um pedaço de ternura no meio dessa brutalidade cinza.
Esvoaçam com o vento que no mais tardar se torna vendaval.
Aproxima o sol a luzir todo vão de céu a desvelar.
A paisagem que se perde é quase aquela que se encontra.

Pudera a eternidade nos ensinar a beleza do ciclo.
Noite e dia, dia e noite em constante imersão, explosão.
Imersos na poesia do infinito pulsar.
O som do silêncio a nos brotar com o som da vida a nos tocar
em constante devaneio da dança a nos levar ao nosso lar.
Onde a vida pulsa infinitamente, onde o sorriso brota continuamente,
onde a poesia mora delicadamente em cada coração a cantar sua oração 
em lágrimas de luz, no pranto do imenso canto que encanta a dor de tantos
a elevar para sempre levar a voar aqueles que agora aprendem a amar.

Revoam pássaros no céu a anunciar a poesia de tudo
como quando voam a denunciar a chuva que vem nos molhar.
Dessa vez a poesia cairá gota por gota a tocar o vazio,
espaço em notas de um piano
A música que brota continuamente naquele que pousa no infinito
como um passarinho a esvoaçar notas que nem sequer sabe tocar
e por não saber abre o espaço de voar sob aquilo que é impossível calar.
E canta até aprender que seu cansaço é ilusão
pois que se alimenta desse infinito pulsar.
O que torna o cansaço um constante esperançar
alimento para sempre voar!

Luiza Maciel Nogueira

16/01/2016


Sobre sementes que nascem

Virão para teus olhos sementes de encanto apenas e somente se permitir, no entanto poderá vir uma semente em um repente sem que possas resistir e então aproveite. Essas são como flores a crescer nas mãos de quem souber regar o seu lar. 

Infinitas são as histórias que não te contam, estas são essenciais para que você viva. Vida que flui e nem se vê e pouco demais se sente. Não tem nem um segundo que possas voltar, não é apenas ilusão. Não é apenas repetir uma coisa qualquer com muito sentido mas pouco ouvido é a fé.

Em um sonho vi o infinito. Estava na platéia a admirar sem sequer olhar. O amor tem dessas coisas sem explicação quem dirá que isso requer a mais completa fé. Amar sem porque é mérito de quem não sabe a chave que vai abrir a porta. Para onde será que ela vai, a chave para lugar nenhum e o que mais você acredita que não é verdade e é só padrão, prisão da falsa felicidade. É claro tem momentos daqueles que permanecerão contigo para sempre até o sempre não ser mais. 

Quem sabe dessa vez nos acertamos sem precisar falar, escrever ou entender. Sabe eu aceitei essa coisa revoltante que é ser. A única coisa que me faz continuar é a total curiosidade de descobrir a verdade. Por isso faz favor de me dizer como for. 

O tempo não vai parar para eu gritar tudo o que eu queria que todos soubessem e vissem sem precisar falar. Inútil é tentar abrir portas para quem quer ficar trancado sem alimento e sem poesia.

Tenho fé que essa parte não me parta ao meio até o fim para sorrir enfim nesse desesperar fogo eterno alimento de quem não parou para calar a sorte de quem ainda dorme na completa bola do tempo que não fura o olho de saudade daquele tempo que éramos tão naturais, sem tanto artifício, sem tanta distração, tão íntegros. 

Não tenha tanto medo do primeiro ardor é ele que faz multiplicar amor. Diante disso certamente espero suscitar uma boa parada cardíaca em quem quer só raciocinar. Pois me diga de que vale um ser sem será? Facilmente dança nas palavras para explicar o inexplicável de que não existe razão para tais coisas. 

Logo enquanto quer prender, quero libertar de todas as grades, mas quem sou eu mera prisioneira. Abro só aquilo que posso que é a minha porta para além. Inúmeras portas estão aí a serem descobertas a cada dia, hora, a cada presente que nós fazemos presentes aqui. Só nessa pequena porta existirão mãos portas e então a escolha é somente sua atravessar, trancar, ficar parado, abrir o outro lado que te espera calado para que vejas além daquilo que podes ver.

Da infinitude de tudo. Da total incerteza das coisas certas. Da fragilidade do forte e da força da total fragilidade. Pedalei 34 quilômetros outro dia a procura de sabe-se lá o que. Encontrei a inexplicabilidade das coisas simples, dessas que valem a brincadeira de existir. Cheguei a uma conclusão inconclusa: se tudo é um infinito pulsar em aprender a única coisa que faz viver é amar esse eterno aprendizado das coisas simples. Por serem demasiado simples às vezes nos parecem banais, mas não são. A alegria da vida é brincar de aprender e de ensinar. De ensinar a aprender e de aprender a ensinar. De ensinarmos a nós mesmos constantemente a brincar de viver essas coisas que tem o verdadeiro pulsar da vida.

É claro que os grandes acontecimentos nos transformam, mas com os pequenos é nosso dever engrandecê-los e transformá-los em nosso.

Dia vai dia vem e haverá o dia que aprender será tão natural quanto respirar. 

Quanto respirar a poesia de tudo te fará infinitamente mais rico alimentado pela beleza de um mundo em chamas.



Poema da dança da infinitude


vibra qualquer palavra em qualquer sonho
a vida é feita de coisas qualqueres
joga as mãos livres 
pinta, toca, dança, relaxa, brinque
tudo gira em um imenso repente
redemoinhos infinitos
que não cessam de brotar
nascimentos repentinos de estrelas
a infinitude máxima de tudo
nasce em um olhar
e segue a ondular pelo universo
onda sonora de poesia
a tocar os corações sedentos
de entrar no ritmo profundo 
da dança do mundo

 16/08/2016


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Diálogos Fictícios: Da insuportável realidade


- Sei que amei quando o som se torna um infinito que se derrama nos ouvidos e escuto aquele nada envolto de tudo e me cai uma tristeza de ter feito oferenda a quem sequer aprendeu a amar. Sei que errei quando vejo uns olhos capazes de me cortar inteira sem sequer se importar com o que me aconteceu. Então eu vejo como é inútil esse pensar. Pois sem esse pensamento eu iria longe Jú, iria longe longe.

- Sim Mia, mas a realidade te chama e é preciso ver. Nem sempre gostamos da realidade. 

- A realidade é um soco no estômago disfarçado de ternura Jú, parece bom mas é insuportável. Eu passo longe. Fiz um poema quase inútil para quem não sente.

"Quando partiram o teu coração 
Você quis partir tudo 
Como que por imitação 
aprendeu a partir o coração 
Segue 
e um dia aprende
A construir o que partiu
Segue 
e um dia se arrepende 
De partir quem já quebrou
Segue 
e um dia o amor
Baterá na tua porta
Para não mais partir
Para não mais ferir
Segue..."

Mia

- Parece que não tem volta Mia. Nada volta. Tudo segue, embora a maioria fique presa em um passado fictício. É apenas uma defesa nossa para a insuportável realidade, mas ultimamente tenho preferido a dor Mia. Ainda que doa, pelo menos ela é minha e não a projeto em passados que já se foram. Não me iludo com amores desfeitos antes do tempo e não dou brecha a quem só irá me ferir. É uma solidão crua, sem culpados e sem heróis. 

- É um doce esquecimento entrar em uma realidade fictícia, mas não nos criamos sozinhos Jú. Receio que sua realidade não exista. Nem tão lá, nem tá cá. A realidade parecer ser um meio termo entre nós, embora cada um tenha a sua.

- Eu não chamaria de fictícia Mia. Eu chamaria de uma realidade íntima cujo acesso é somente de quem vivencia. Uns mais no céu, outros mais na terra e outros até em outros mundos, em outras galáxias. 

- Jú pela primeira vez concordamos em alguma coisa.  


  

Poema que explode, que sonha, que arde

quando o silêncio explode dentro de mim
devo inventar qualquer palavra
que sonhe amor
qualquer poema, prosa, poesia
qualquer coisa bonita
ainda que arder de mistério seja caminho
de jogar palavras ao acaso
para formarem algum sentido
pois o silêncio me arde
e me é insuportável aceitar a morte 
de tudo que se foi
e fica sabe-se lá até quando
quando o quando deixar de ser tempo
para ser um eterno agora 
que mora em nós

domingo, 15 de janeiro de 2017

Poema sem nome


minha dor não tem nome
não é saudade, não é ilusão 
não é amor ou paixão
é um sabe-se lá até quando
é um gotejar de esperança 
sem esperançar 
é um desesperar liberto
sem voar
é aquele pedaço no peito
que não se sabe nomear


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Homenagem à beleza



Você tem que colocar a última invenção do botox.
Adquirir o último modelo de celular.
Comprar, comprar e comprar até no banco se endividar.
Adquira de graça o nosso mais novo cartão de crédito.
A primeira parcela virá em 100,00 reais
o banco não avisou porque afinal é só 100 reais
e se você não pagar os juros vão aumentar.
Pague, é apenas 100 reais e se não tiver é um pobre coitado.
Se reclamar pelo seu direito vão desligar na tua cara.
Se estique até explodir, envelhecer não é natural.
Tire todas as suas rugas, seus pneuzinhos e suas manchas
até aquelas horrorosas de nascença.
Natural é ter anorexia, ser eternamente insatisfeito
nunca sair do seu lugar de ”Selfie” lindo só com Photoshop!
Sumir de tanto emagrecer porque afinal você não é nada
se não consumir o nosso mais novo produto:
A FELICIDADE!
Deseje com todas as suas forças.
Sonhe muito e passe em cima de quem ficar na tua frente
consumir, consumir, consumir
e continue insatisfeito porque a moda é essa agora!
Ser saudável está totalmente fora de moda.
O negócio é fomentar a baixa autoestima dos outros
para você SER MAIS QUE TODO MUNDO.
Não sorria se não vão ver a verdurinha nos teus dentes, 
os teus dentes tortos e amarelados precisam da mais nova pasta de dente.
Corrija essas olheiras, esse nariz, as orelhas, a face, o corpo inteiro
com a mais nova plástica da Barbie. 
Está todo mundo fazendo, só falta você!
Pensar é para quem não tem celular na mão
o Google pensa por você agora,
esqueça de ter o trabalho de ler, escrever então pra quê?
Você tem agora o seu celular para falar e escrever por você.
Fique apenas parado e aprecie a vida passar!
Um dia você vai agradecer por isso.
Agradeça pois a vida poderia ser bem pior.
Tem gente morrendo de fome.
Tem gente que reclama de barriga cheia.
Tem gente morrendo de fome para encher a tua barriga.
Vai colaborar?
Então comece aí a desejar e continue parado,
sem reclamar, sem ser feliz mas fingindo que é viu
porque tem que mostrar para todo mundo
que você é A FELICIDADE e fazerem eles acreditarem nisso
para a vida te consumir
e você virar o nosso mais novo produto: O SER FELIZ!
Mas não se engane você nunca será feliz.
Mas finja que é viu e pense que é viu 
porque ninguém gosta de ser enganado.


*

Poema da última bolacha que se revoltou e foi ser outra coisa

 

Não sou a última bolacha do pacote.
Tampouco sou a primeira.
Também lá no meio do pacote não estou.
Não moro em pacotes de bolacha.
Acho que nem sequer sou uma bolacha.
Me recuso a ser bolacha
quero ser outra coisa incomível
um veneno de verdade revoltante
mas verdade
melhor mil vezes que a mentira fingida
que nos acostumamos
ao mundo em bolha que vai estourar 
quando você menos esperar
Puf, estourou e caiu por terra
seu corpo de plástico fingido
derreterá causando um estrago
no nosso ecossistema
o botox, o silicone, o chip implantado
o sorriso disfarçado, 
a beleza padronizada em fingimentos
o fomento absurdo da falta de auto estima
só para você consumir tudo o que não é e não tem
a bateria que vão colocar na tua cabeça 
pra você funcionar quando
apertarem o botão "on"
e quando cansarem de você 
vão apertar o botão "off" e te empilhar
lá onde os cadáveres ficam.





quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Descanso meu corpo


descanso meu corpo 
mas só colho cansaço 
um peso profundo de fim
não vim acreditar nesse estado
nessa palavra azar
nesse corpo impregnado
vim com a incerteza do amanhã 
com o silêncio das conchas 
com a saudade a me rondar
com o som do mar
na praia do fim de tudo
de um preto petróleo profundo
só me resta ausência 

devo nascer outra enfim amanhã
devo nascer outra enfim 
contudo sempre a carregar 
um pedaço perdido do fim
um pedaço perdido de mim
amanhã devo nascer outra enfim

 

Poema das mais sinceras desculpas




desculpe
outro dia disse dos surdos, cegos e mudos
esqueci dos tão adorados, vangloriados, santificados
Sem Corações!
estes jamais sangrarão apenas matarão
até queimarem no fogo ao sentirem finalmente
sua própria podridão


*

Poema de saco cheio dos incompetentes, desumanos e idiotas no poder

(fotografia sem autoria conhecida)


transbordar é o destino dos saco cheios 
que não conseguem mais segurar 
o sangue dos escolhidos para eliminar arquivos 
e abrir espaço para mais vagas nas oficinas da morte 
os cadáveres se multiplicam um a um enfileirados 
como marionetes a serem comandados
por perversos delinqüentes sentados no trono do judiciário 



 *em protesto à matança nos presídios do Brasil e pra quem não sabe o Brasil é o 4º país com a maior população carcerária no mundo todo. Tem gente presa que roubou um Kinder Ovo na padaria e outros casos absurdos. Querem implantar o sistema presidiário dos EUA no Brasil, o que é ainda pior pois esse sistema é ainda mais perverso, louco e como sabemos "Violência só gera violência". 


*

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Poema de farturas


Farta estou da falta de esperança 
da falta de amor e paz. 
Farta estou da esperança fingida, 
daquele pedaço de mim que se acha 
a última bolacha do pacote.
Uma selfie de sinceridade inadiável.
Permita-me ser pessimista.
Não consigo.
Invento minha dança neste papel 
para fingir que ainda não morri. 
O sangue me jorra no coração.
O sangue está a derramar nos olhos dos cegos. 
Nos surdos o sangue goteja nos ouvidos. 
Nos mudos o sangue explode por dentro. 
Nos sem sentidos o sangue parou de pingar, 
mas tem um celular na mão a ditar a ilusão 
sem sentir, só anestesiar 
a dor que não se quer ter 
que finge dor não ser. 
De ser um pedaço de curtida na vida dos outros. 
Um fragmento de um joinha torto
ou de um coração bonitinho por fora
mas partido por dentro
levado pelo rio das carências necessárias
para todos continuarem a consumir sem pensar
a produzir sem questionar
a matar sem morrer
a morrer sem matar
o eu que já é outro 
para a correnteza do fingimento vai
te deixar tonto, fraco, morto.
O espaço de morrer está a acontecer. 
Ainda não morri. 
Mas estamos quase lá. 
Fingindo que vivemos. 
Fingindo que não sentimos. 
A dor que nos faz sangrar. 
A matar e a morrer sem parar.
Viver o parto de ser. 
Morrer, nascer, morrer de novo e nascer
até quando o sangue acabar. 


Luiza Maciel Nogueira 





Depois de um tempo decidi continuar postando aqui mesmo alguns de meus poemas e f***-*e! Num mundo em que todo mundo quer ser perfeitinho eu só quero poemar, desenhar, fazer minha arte - e este é o meu espaço de livre criação! Publicarei o que eu quiser e quando quiser. Quem quiser que veja, que julgue e que pense o que quiser.


*