quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Poema de farturas


Farta estou da falta de esperança 
da falta de amor e paz. 
Farta estou da esperança fingida, 
daquele pedaço de mim que se acha 
a última bolacha do pacote.
Uma selfie de sinceridade inadiável.
Permita-me ser pessimista.
Não consigo.
Invento minha dança neste papel 
para fingir que ainda não morri. 
O sangue me jorra no coração.
O sangue está a derramar nos olhos dos cegos. 
Nos surdos o sangue goteja nos ouvidos. 
Nos mudos o sangue explode por dentro. 
Nos sem sentidos o sangue parou de pingar, 
mas tem um celular na mão a ditar a ilusão 
sem sentir, só anestesiar 
a dor que não se quer ter 
que finge dor não ser. 
De ser um pedaço de curtida na vida dos outros. 
Um fragmento de um joinha torto
ou de um coração bonitinho por fora
mas partido por dentro
levado pelo rio das carências necessárias
para todos continuarem a consumir sem pensar
a produzir sem questionar
a matar sem morrer
a morrer sem matar
o eu que já é outro 
para a correnteza do fingimento vai
te deixar tonto, fraco, morto.
O espaço de morrer está a acontecer. 
Ainda não morri. 
Mas estamos quase lá. 
Fingindo que vivemos. 
Fingindo que não sentimos. 
A dor que nos faz sangrar. 
A matar e a morrer sem parar.
Viver o parto de ser. 
Morrer, nascer, morrer de novo e nascer
até quando o sangue acabar. 


Luiza Maciel Nogueira 





Depois de um tempo decidi continuar postando aqui mesmo alguns de meus poemas e f***-*e! Num mundo em que todo mundo quer ser perfeitinho eu só quero poemar, desenhar, fazer minha arte - e este é o meu espaço de livre criação! Publicarei o que eu quiser e quando quiser. Quem quiser que veja, que julgue e que pense o que quiser.


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