Música!

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sexta-feira, 30 de junho de 2017

Poema para ampliar a percepção


(Van Gogh)

vejo inúmeras árvores 
que um dia já foram sementes
a natureza as plantou, 
que um dia foram brotos, 
a natureza as gestou
que hoje são árvores

dos inúmeros processos ao nosso redor
daquela casa que foi construída
tijolo por tijolo 
por pessoas que já estiveram aqui
que nasceram, cresceram, viveram, morreram
aquele livro 
que nasceu da mente de um ser, vários
que passou por inúmeras influências, 
leu diversos livros
caminhou muitas estradas
transmutou sentimentos, vivências, razão em palavras
e agora cá se encontra em páginas diante de nós
aquela música 
que já foi imaginação na(s) cabeça(s) do(s) músico(s),
que transmutou sentimentos, vivências, imagens em sons 
esforço contínuo de aperfeiçoamento do som
e agora cá está pronta para ser desfrutada
aquele alimento que está na mesa
e já foi semente, planta, colheita
a ser preparado, cozinhado, carregado
e agora digerido dentro de nós
a roupa que nós vestimos
que já foi idéia, fio, suor de alguém
dos inúmeros processos
aquela pessoa que foi gestada por sua mãe
que foi bebê, criança, adolescente
e cresceu até se tornar adulto
todos os seres, coisas, objetos, idéias
que agora cá estão diante de nós
nesse beijo do agora

tudo que ao nosso redor está
e que um dia já foi apenas 
idéia, semente, pó





terça-feira, 27 de junho de 2017

Poema do silêncio das coisas

o silêncio das coisas nos captura
a natureza se movimenta em vórtices
ciclos de gestações, vidas e mortes
das presenças e das ausências dos sentidos
crescer é deixar o vazio nos tocar
guerrear contra as vidas e contra as mortes
à qualquer custo
abrir espaço para as coisas dançarem
dentro de nós
aquela árvore de Monet quer nos sussurrar 
seu mistério
aquela obra de Picasso quer fragmentar
o que em nós precisa ser quebrado 
desesperadamente
aquela obra de Van Gogh quer nos mostrar
a natureza das essências, dos redemoinhos, 
dos ventos, dos tempos em movimentos
aquele amor quer te fazer sonhar, 
sorrir, chorar, cantar, viver, ser, amar
aquele desamor chega para se ir
aquele final de música quer nos revelar o início 
daquilo que não tem nome 
e fica mesmo quando se vai



Arte: Claude Monet
Jardins Sales Antibes



domingo, 25 de junho de 2017

Poema de toda, tanta

de toda, tanta beleza presente
o mar soube como sempre
nos encantar com seus brilhos
a nos afagar com suas águas 
no toque da pele
os barcos deslizavam melodias
e era a infinitude que nos beijava
o sol nascia no início do traço 
rasgavam as sombras ao meio
e a verdade se via discreta
nenhuma ilusão nos tinha
as coisas se eram, nós estávamos
prenhes de ternura
dessa vez era a simplicidade 
que nos abraçava 
e nos cantava bem baixinho
o nosso desesperar
os barcos se iam 
acenavam uma nova viagem

a vida tem dessas coisas 
de nos trazer encantos
entre tantos entretantos 
tanto enquanto nascer
quando a coisa nos toma
e nos mostra seu vazio
quando o ser emerge da coisa
e o sonho se vê


Arte: Claude Monet
"nascer do sol"


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Poema dos deslimites dos lábios

Arte: Salvador Dali
Sofá Lábios de Mae West


sentada nos lábios do outro
fui palavra cuspida na boca
poema na pele, verso sem tato, irado
horizonte sem estrada, estrada deserta
fui paciência sem limite
impaciente demais para limitar 
os deslimites da língua do sofá
revoam os pássaros dentro da garganta do tempo
nasce o vôo delinqüente deste samba sorridente
no chororô da ignorância nasce um sonho, uma esperança
sentei nos lábios da poesia e ela me cuspiu alegria
e quando sentaram nos meus lábios
sorvi um fado risonho, pimpolho, enfadonho
piolho que foi ser gente
gente que quer ser outro tipo de coisa
coisa que não quer ser
ser que viram a coisa
coisa que se viu
e se apavorou consigo
com si que sigo


*

terça-feira, 20 de junho de 2017

Poema dos Mundos, das esferas em eras, dos sistemas solares, milhares

Arte - Salvador Dali 
Galetea das Esferas

mundos tantos vários
obtusos absurdos
esferas em feras em eras
sistemas solares milhares 
luares, pilares circulares
lares, olhares, pomares milenares
galáxias, universos, infinitos
fito dois palitos em ritos ditos não ditos
atritos estritos
fragmentos construtos
insultos impactos
nefastos despertos
abruptos repletos

e se cada palavra fosse infinita?
singela destreza eis a comida na mesa
palavra sensória, palavra escória
palavra da pré-história
palavra, palavra, palavra
bom apetite!

é o mundo que se alimenta de mundos
a palavra que se alimenta do sentido
sentido na veia do dito, não dito
silenciado, perdido
se faz ou não faz sentido?
o leitor distorcerá à sua própria causa
ao seu próprio mundo dentro dos seus mundos
infinitos finitos 
alargados, aprisionados
feios, bonitos
luzidios, sombrios
eis o chamado do escritor:
multiplicai o sentido!
dance a sua maneira o sentido
e se não fez que não faça
é sem sentido que a vida se basta!


*


domingo, 18 de junho de 2017

Das viagens da mente

Arte: Salvador Dali
 

procurei subir todos os degraus
mas farta de subir 
sem encontrar-me desisti 
na metade do percurso cai
visitei o chão que de tão duro
se tornou macio
se eram nuvens cai de novo
dessa vez a queda foi fatal
mergulhei num oceano 
desses que te puxam para baixo
nas profundezas desse mar
descobri meu desesperar
tubarões, polvos e monstros marinhos
de repente alguém me pescava
e sem peixe ser fui fisgada
no canto de um barco
era a ternura que me chamava
no barco não tinha pescador
fui peixe, fui pescadora, fui pássaro,
e atirei em mim mesma 
no momento exato do voo lá no alto
desfaleci 
certos cortes não param de sangrar
pingam gota a gota
até o final da existência 
e de repente acordei
nunca estive na escada, 
nunca estive no mar
nunca estive cortada
foi tudo uma grande viagem
eu sou aquela folha em branco
e o lápis da mente pira em seus absurdos
onde qualquer risco é possível 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Poema desse oceano de lágrimas

 
Arte: Salvador Dali

cai uma lágrima no oceano
cai o corpo todo
afoga a última gota e fim
a vida se esgota nesses dias sem sol 
as sombras agem silenciosas
para certas pessoas não podemos abrir a porta
ou nos roubam a vida 
certas criaturas sonham
outras se debatem e há aquelas que nadam 
tem quem queira afogar quem está na frente
e culpar quem apenas boia
tem de tudo nessa vida
tem quem seja criança a repetir padrões inconscientes
nesse oceano de lágrimas 
já basta de tantos fingimentos
eu quero o espaço do mar que me pertence
deixa-me aprender a fechar a porta
a quem quer me afogar
a me ferir, a me culpar
a projetar injustamente em mim 
os seus próprios fantasmas
olhe para seu umbigo
lute pelo seu pedaço de oceano
eu nada tenho para lhe oferecer além desse poema 
mas não venha me afogar
tem quem ria por último e chegue na praia primeiro
ensine essa gente que não existe graça
não existe vitória
não existe melhor ou pior, inferior ou superior
existe apenas esse oceano de lágrimas 
e se te abri a porta 
agora eu fecho
a sete chaves
entra só quem souber a senha