Música!

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terça-feira, 5 de setembro de 2017

Miguel Torga



Sísifo



Recomeça....

Se puderes

Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.




E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...


Miguel Torga

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Poema de raízes (para todos aqueles que sangram)



já tentaram cortar as minhas raízes
e sim eu sangrei na solidão que me despia
já me arrancaram a infância
e sim hoje sou criança
já partiram meu coração e o pisaram 
e sim foi dando risada em voz alta
que já tiraram boa parte de mim
mas eu sobrevivi e cá estou
minhas raízes me sustentam 
e eu vôo quando não aguento



quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Poema de sangue em despedida

despeço o tempo do tempo
um convite já não adianta
a ferida aberta sangra
já se foi tempo demais 
feridas demais
hoje não te darei esperanças 
o meu desesperar canta
nosso sangue dança pela estrada
funde no tempo que se foi
junto com um tempo que nunca será
através do tempo que está
lacrimeja o tempo sem tempo
na gota da nossa infinitude
cante todas as músicas mesmo assim
e jamais pare amor
para que um dia depois de tanto cantar
alguém te escute
e como um beijo
alguém possa te amar e se perder
e que de tanto amor
o sol possa nascer

sábado, 19 de agosto de 2017

Poema da loucura dos espaços ocos


https://youtu.be/4GjrJ4NF5oU

Poema da loucura dos espaços ocos a loucura dos espaços ocos são deliciosamente infindos um buraco negro de versos qualquer palavra jogada voará sabe lá para onde fará sabe lá o que o mistério as abraçará a solidão as beijará a indiferença de uns será a ternurinha de outros nada sabemos desse destino naquele sorriso poderão existir rios, mares, cachoeiras de lágrimas naquela lágrima existirão inúmeros sorrisos os espaços ocos habitam mistérios indecifráveis pontos de interrogação hoje não me atrevo a tocar a brancura alva no alvo de te amar me atrevo a invadir a loucura de te sorrir nesse espaço sonho sorrisos a multiplicar paraísos nas profundezas desses mares te ofereço essa chuva de sangue em versos minhas veias teimam constelações espero sempre pelas estrelas brilharem ao contemplar a noite nesse buraco negro, nesse negro manto da noite, nessa oca infinitude brilham as estrelas a noite canta, a infinitude dança e tudo é esperança

por Luiza Maciel Nogueira Especialmente para Arte de Jeannette Priolli

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Mistério ante mistério

mistério ante mistério 
a poesia jorra fétida
do esgoto molha o asfalto
declama o verso que respinga
chuva que derrama
na cidade que incendeia
toda luz que finda
sua breve despedida
arde o encontro 
ao se desencontrar
que ao cantar silencia
e ao escrever apaga
toda lembrança que trança 
nesse vai e vem a dançar
e reatinge outro tempo
no sem tempo
de quem tece 
seu olhar

Foto: O silêncio canta seus mistérios. Escutas? XIX lado A
 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Um pouco de Drummond


(Estudo da Natureza para delirar uma pintura 
Luiza Maciel Nogueira)


Ausência
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.




sexta-feira, 11 de agosto de 2017