estive a pensar na necessária distância
daquilo que quer se separar de nós
e apesar de não querermos essa separação
de nos agarrarmos ao vazio, ao inútil, ao nada
é preciso deixa-lo ir de tempos em tempos
e de tempos em tempos nos despedir
ainda que as palavras não se bastem
para comunicar o intraduzível
e nossa presença já não resulte algo
qualquer palavra obsoleta cairá no vazio
já ninguém escuta a vibração do silêncio
as vezes nem mesmo a ausência
nos fará escutar aquele que se foi
há dias que nem mesmo nos escutamos
como quando a música deixa de tocar
nossos obsoletos corações
como quando qualquer poema deixa de nos tocar
como quando temos a certeza da morte
que ela já nos bate na porta
e a qualquer momento pode nos levar
como quando se ri
daquele que quer nos matar sem piedade
um riso leve, solto, inútil
e o mundo continua a girar